sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Dentro

Hoje eu abri as janelas pro lado de dentro
Olhei a sujeira, as ruínas, os cacos...
Olhei os amores, as delícias, os quadros...
Cantei, chorei, amei, sorri, senti... me senti... mim sem ti...
Não... não é o fim...
Ainda há espaço para você aqui...
A diferença?
Hoje esse espaço não está vazio...
Está cheio de tudo que é meu...
Com um bilhete enorme na porta:
“Seja bem-vindo!!! ... se quiser entrar”.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Mosaico

Tudo em mim me destrói...
Meus olhos são carregados de despedidas, nas quais,
Tudo que mais amo, acena com o lenço branco de um adeus,
Minha boca se morde, se sangra, se desfaz,
Pronuncia histórias torpes, frases ferinas, palavras cortantes como aço de navalha,
Minhas unhas me arranham, me rasgam, me deformam...
E a forma que me refaço é juntando cada pedaço
Unindo-os como consigo, em uma nova ordem, uma outra posição
Faço assim um mosaico de mim
Com novas cores, novos sentidos, novos sabores
Um novo jeito de ser inteiramente eu.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Pró Seguir

O seu altar continua lindo, no mesmo lugar, onde outrora, prestei adorações.
Ainda és santo e imaculado, protegido pelas vestes douradas que te vesti,
Seu poder está intacto e seus milagres, que me deixaram mais bonito, são lembranças boas de um fiel que não mais crê.
Levantei-me do seu templo, virei de costas para a sua sagrada face e me afastei da sua luz
Para quê?
Para iluminar novos caminhos, meus caminhos...
Achei a porta da rua e saí desvairado sentindo tudo que era meu
E o que jurei ser só seu, só fez sentido em mim
Encontrei-me na delícia da imperfeição que sou e não pedi misericórdia
Quando me percebi humano, já era dono de mim...
de um novo querer...
 de um novo existir...
Quanto a você, nem te blasfemei e nem se ouvirá heresias da minha boca
Pelo contrário, ainda estarás nas minhas orações
Mas é preciso seguir meus próprios passos...
Fazer os meus milagres...
É preciso continuar a viver.

(Para alguém que não despencou do lugar que eu coloquei... só foi preciso "pró seguir")

terça-feira, 28 de junho de 2011

PARTES - 3 - ESTOU... (EM) MIM

E com a rapidez de um beijo afoito me senti novamente...
Foi despertando...
Boca, rosto, pele, ossos, membros... tudo estava ali...
Sentimentos, dores, angústias, amores, incertezas, delícias... toda a minha  imperfeição
Eu estava ali...
No peito que pulsava... no corpo estremecido... na alma que gemia
Tudo meu...
Tudo eu...
E num gozo absurdo de um prazer quase narcísico
Sorri para o espelho (alteridade)
“Bem vindo de volta... Que saudade senti de mim”.

PARTES - 2 - ESTOU... (EM) LUTO

Amanhece
Os raios do sol que prevalecem lá fora violentam as frestas da minha janela
Uma luz altiva e insensível invade meu quarto escuro
Clareia roupas, lençóis, livros, filmes...
Você não está ali.
Mas eu já não sabia desta ausência?
Não fui eu que respondi ao seu adeus?
Eu que compreendi sua decisão?
Eu... logo eu que assisti teu vôo
Deposito ao meu redor migalhas do nosso amor,
Na esperança de que volte para se alimentar de mim.

PARTES - 1 - ESTOU... (EM) FIM

Acabou, mas não com um final clássico:
Existem dois pássaros lindos que ainda voam
E mesmo que não seja lado à lado, ainda dividem o mesmo céu.
Se vão se encontrar?
Não se sabe, eles escolherão.
Um deles, exibido, voa alto, fazendo um esforço enorme para esconder a fragilidade de suas asas.
O outro se vê preso numa corrente invisível que não lhe permite se afastar tanto do chão.
Ambos voavam em alturas diferentes,
Cada qual com sua dor e limitação,
Mas escolheram se freqüentar.
E assim fizeram enquanto os ventos de suas asas pareciam melhores que o vendaval que lhes cansava.
Não seguiram,
 Ficaram ali,
Estagnados no mesmo lugar,
Enquanto se olhavam nos olhos.
E pela luz desses olhos se conheceram e se encontraram,
Mas ainda assim parados e sem força para prosseguir.
Então, esgotados,
Separaram-se,
Para voltar cada um ao seu vôo.
Se vão se encontrar?
Não se sabe, eles escolherão...
Mas ainda são dois pássaros guerreiros e lindos.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

O GRITO

Este grito que agora nasce dentro de mim,
Que sobe meu corpo no desespero de sair e aliviar a dor que queima o meu peito
Vai se deparar com uma boca fechada e com dentes tão presos,
À ponto de não escapar nenhum som, nenhum ruído...
Nada mais vai sair de mim agora.
Nem grito,
Nem desespero,
Nem dor.
Nada.
Economizo palavras.
 Eu não posso esvaziar.
Dentro de mim cresce um vazio cada vez mais difícil de preencher.
Não me peça para gritar agora
Eu sou esse grito.
Eu sou esse desespero.
Eu sou essa dor.
Eu sou esse nada.

terça-feira, 3 de maio de 2011

Vá... mas volte

O que eu faço para entender esse amor que jaz em mim
que nunca se despede, mas também não dá seu sim
Mostra-se presente cada vez que digo “fim”,
mas não aceita o re-começo

Como fugir do sentimento destrutivo
de te matar todos os dias e não sentir nenhum alívio
Querer ressuscitar-te e estar ali contigo
para depois te matar de novo num grito decidido,
que nada decidiu,
Tampouco se viu
longe do seu abrigo

Vivo na mesma roda dia após dia
fazendo a mesma coisa que já não tem mais valia
sofrendo a mesma dor de te amar e te expulsar da minha poesia

Quando eu grito "volta" é por muito te querer
Em seguida peço "vai" que eu preciso te esquecer
e quando bate a porta não entendo o porquê
te quero de volta antes do escurecer
A casa em silêncio grita por eu e você
eu preciso ficar sem
a companhia do meu bem
mas não consigo te perder...

E eu te peço que vá
mas fico a esperar
que você um dia 
volte...

domingo, 17 de abril de 2011

Frio

Quando pus meus olhos frente a frente ao seu olhar,
senti um medo tão estranho, senti vontade de calar
o meu amor que era só meu e não encontrou o lugar
conhecido, acostumado, que podia repousar

Ficou parado, apavorado, sem coragem de um lamento
enquanto os seus olhos de fome, substituíram os de acalento
e eu gritei mesmo calado, mas ninguém me escutou
nem mesmo eu, ali tão perto, dei ouvidos a essa dor
que insistia em sair, mas ficou dentro, se calou...

E a sua boca de poemas começou a me morder
dizer palavras obscenas para se satisfazer
e eu desesperado mendigava por você
que se perdeu em algum lugar, onde tentou se esconder
e me agarrou com toda a força, também senti me perder

Eu tentei gritar socorro, mas sua língua me impediu
e desfez minhas palavras de um jeito tão viril,
do discurso atrapalhado só um gemido se ouviu
e o seu rosto desfigurado num sorriso se partiu
No gemido de prazer que você usufruiu,
não percebeu que agonizava o amor que a gente construiu
e num suspiro aliviado...
morreu...
 em meio ao frio.

terça-feira, 5 de abril de 2011

Ajude-me...

Ajude-me...
Estou quebrado em mil pedaços e não consigo sair
A moldura pequena que escolhi é resistente,
pois resiste na contra mão do meu querer
Ajude-me...
Preciso quebrar de verdade
Do que me adiantam peças desfeitas presas num mesmo lugar?

Sinto-me forçado a ser o mesmo,
mesmo sabendo que não sou
Meus pedaços que querem se espalhar,
vivem a angústia de serem reunidos
De formarem um desenho que não existe mais.
Eu quero me reinventar,
Formar uma nova imagem,
Ser outro eu.
Mas enquanto estiver emoldurado aqui,
serei apenas o mesmo em pedaços...

Ajude-me...

terça-feira, 15 de março de 2011

Palavras de Criança

_ Tio, olha eu. (apontando para mim)
_ Não, esse é o tio, (aponto para ele) esse é você
_ Não tio, no espelho.
_ Que espelho?
_ No seu olho.

PS: Pensei em fazer um texto sobre, mas fiquei inibido pela grandiosidade das palavras dele...
Desculpa carinha, você enxerga mais longe que o tio

terça-feira, 1 de março de 2011

Vestígios do Fim

Parta rápido, mas antes, elimine os vestígios do fim.
Leve consigo sua indiferença,
seu carinho, seu pedido de perdão...
Leve sua falta de amor
e não fale dela com ninguém,
finja apenas que eu não existi
Enquanto isso vou me descabelar,
destruir fotos, queimar roupas,
Talvez rasgue alguns livros
e até faça um corte no rosto.
Preciso escrever um texto convincente sobre o amor recíproco que não deu certo
Enquanto finjo pra mim mesmo que um dia deu certo,
Que era recíproco
E que era amor.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Meu Espelho

Meu espelho ficou triste novamente,
me encarou com olhos chorosos de indagação
e se sentiu só
seus desenhos, que outrora nos emoldurava,
hoje parecem grandes.
Sobra um pedaço que falta,
um pedaço que não era meu, era comigo.
Hoje meu espelho é só meu e sofremos juntos,
ele me perguntando "cadê?"
e eu dizendo que ainda estou aqui.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Acordar


Olhou-o nu, na mesma cama, ao seu lado. O corpo era de um igual, mas diferente em formas, texturas, tamanhos, odores...

Não eram duas metades, eram dois inteiros que se renderam a intensidade do encontro e optaram, assim, por viver aquele momento.
O que olhava sorriu ao perceber, materializado, o que pertencia ao seu imaginário.


A oportunidade de tocar, provar, render-se, lhe inundou os olhos, arregalados, forçando-os a ficarem abertos. Agora, para sonhar não necessitava mais dormir, era preciso acordar.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Despedida

Olhou pela última vez tudo que lhe pertencia e resolveu partir... deixou-se esvair pela porta que ela mesmo abriu e foi embora, se libertando do que fervilhava dentro de si, até que nada que restasse fizesse sentido... nada mais fosse seu.

Levou embora o calor que a ardia e o que ficou tornou-se frio, desumano , sem vida... a vida fugiu com ela...


Muitos dos que ficaram choraram sob as sobras... despediram-se de pedaços... homenagearam objetos podres... mas não seu amado.

Este nem apareceu por ali.

Houve quem dissesse que ele pouco se importava, mas, sozinho, chorava em um lugar qualquer... por saber que, hoje, não poderia encontra-la em lugar algum.