quinta-feira, 30 de junho de 2011

Pró Seguir

O seu altar continua lindo, no mesmo lugar, onde outrora, prestei adorações.
Ainda és santo e imaculado, protegido pelas vestes douradas que te vesti,
Seu poder está intacto e seus milagres, que me deixaram mais bonito, são lembranças boas de um fiel que não mais crê.
Levantei-me do seu templo, virei de costas para a sua sagrada face e me afastei da sua luz
Para quê?
Para iluminar novos caminhos, meus caminhos...
Achei a porta da rua e saí desvairado sentindo tudo que era meu
E o que jurei ser só seu, só fez sentido em mim
Encontrei-me na delícia da imperfeição que sou e não pedi misericórdia
Quando me percebi humano, já era dono de mim...
de um novo querer...
 de um novo existir...
Quanto a você, nem te blasfemei e nem se ouvirá heresias da minha boca
Pelo contrário, ainda estarás nas minhas orações
Mas é preciso seguir meus próprios passos...
Fazer os meus milagres...
É preciso continuar a viver.

(Para alguém que não despencou do lugar que eu coloquei... só foi preciso "pró seguir")

terça-feira, 28 de junho de 2011

PARTES - 3 - ESTOU... (EM) MIM

E com a rapidez de um beijo afoito me senti novamente...
Foi despertando...
Boca, rosto, pele, ossos, membros... tudo estava ali...
Sentimentos, dores, angústias, amores, incertezas, delícias... toda a minha  imperfeição
Eu estava ali...
No peito que pulsava... no corpo estremecido... na alma que gemia
Tudo meu...
Tudo eu...
E num gozo absurdo de um prazer quase narcísico
Sorri para o espelho (alteridade)
“Bem vindo de volta... Que saudade senti de mim”.

PARTES - 2 - ESTOU... (EM) LUTO

Amanhece
Os raios do sol que prevalecem lá fora violentam as frestas da minha janela
Uma luz altiva e insensível invade meu quarto escuro
Clareia roupas, lençóis, livros, filmes...
Você não está ali.
Mas eu já não sabia desta ausência?
Não fui eu que respondi ao seu adeus?
Eu que compreendi sua decisão?
Eu... logo eu que assisti teu vôo
Deposito ao meu redor migalhas do nosso amor,
Na esperança de que volte para se alimentar de mim.

PARTES - 1 - ESTOU... (EM) FIM

Acabou, mas não com um final clássico:
Existem dois pássaros lindos que ainda voam
E mesmo que não seja lado à lado, ainda dividem o mesmo céu.
Se vão se encontrar?
Não se sabe, eles escolherão.
Um deles, exibido, voa alto, fazendo um esforço enorme para esconder a fragilidade de suas asas.
O outro se vê preso numa corrente invisível que não lhe permite se afastar tanto do chão.
Ambos voavam em alturas diferentes,
Cada qual com sua dor e limitação,
Mas escolheram se freqüentar.
E assim fizeram enquanto os ventos de suas asas pareciam melhores que o vendaval que lhes cansava.
Não seguiram,
 Ficaram ali,
Estagnados no mesmo lugar,
Enquanto se olhavam nos olhos.
E pela luz desses olhos se conheceram e se encontraram,
Mas ainda assim parados e sem força para prosseguir.
Então, esgotados,
Separaram-se,
Para voltar cada um ao seu vôo.
Se vão se encontrar?
Não se sabe, eles escolherão...
Mas ainda são dois pássaros guerreiros e lindos.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

O GRITO

Este grito que agora nasce dentro de mim,
Que sobe meu corpo no desespero de sair e aliviar a dor que queima o meu peito
Vai se deparar com uma boca fechada e com dentes tão presos,
À ponto de não escapar nenhum som, nenhum ruído...
Nada mais vai sair de mim agora.
Nem grito,
Nem desespero,
Nem dor.
Nada.
Economizo palavras.
 Eu não posso esvaziar.
Dentro de mim cresce um vazio cada vez mais difícil de preencher.
Não me peça para gritar agora
Eu sou esse grito.
Eu sou esse desespero.
Eu sou essa dor.
Eu sou esse nada.