quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Compreender

Ela olhava as costas se distanciando cada vez mais, indo embora, se misturando à multidão. Seus olhos, chorosos, expressavam a indignação de quem não sabia o que fazer. Acreditava sim que aquelas costas ficavam muito mais bonitas emolduradas em seus braços, mas era capaz de entender que a outra precisava da liberdade que ela não conseguia dar.

A outra por sua vez, caminhava chorando, sentindo a dor de deixar para trás quem ama. Tentara por diversas vezes se calar, se forçar a ficar emoldurada ali, onde ela também gostava de estar, mas o impulso de voar lhe era tão forte que precisava experimentar o céu.

Os outros não entendiam, precisavam classificar, escolher uma vítima e uma vilã. Queriam rótulos e chamavam tudo aquilo de falta de amor. Os olhos deles não conseguiam enxergar o que se passava dentro delas. Talvez só elas entendessem uma a outra. Talvez nem as duas fossem capaz de compreender a prova de amor que emanava dali. Mas eram as únicas que sabiam o quanto isso lhes custava.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Algo que Não Sei

O inexplicável é sentir dor pelo que não conheço,
esperar pelo que nem sei se vem,
sentir falta do que nunca tive,
escrever poemas de amor inspirados em ninguém

E mesmo assim sentir doando-me
para alguém que nem sei quem
à espera de um amor que nem sei se existe
construindo uma vida baseada num além

Mas assim me sinto mais perto
do não-sei-o-quê que sempre quis
minha alma me obriga a estar aberto
para um sei-lá-o-quê mais feliz

Não adianta muito querer entender,
faltam peças que ninguém desenhou
Há um espaço em branco esperando para ser
preenchido por algo que ainda não se concretizou

E como dói a falta desse algo que não sei
dores tão intensas que meu corpo não dá conta
Em tantos lugares eu já procurei e nada achei,
mas sei que preciso encontrar aquilo que não se encontra

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Outros de Mim

Acordam-me às 5 da manhã.
Acordo-o às 5 da manhã.
Um ente criativo e insistente avisa-me que há muito a fazer. O outro reclama, diz que está cansado e precisa dormir.
Fecho os olhos e me cubro, obrigando várias vozes a se calarem, mas o sono me foge.
Alguém mais criativo abriu as asas, voou dali, e, por mais que me esforce a desligar, os caminhos percorridos são tão mais chamativos que me mantém ligado.
De repente um grito.
Levanto-me da cama assustado e tapo a boca.
Tarde demais.
Um sorriso de satisfação.
Já levantei.
A mudança na ação passa o comando do barco dos possíveis para outro marinheiro, que, de outro, passa a ser um: EU.
Os olhos inchados de quem dormia nem combinam com o olhar brilhante e criativo que conquista seu espaço, mas o rosto todo vai ganhando outra forma enquanto a mesma fôrma se adapta ao outro de mim.
Vários eus atravessam-me o tempo todo, mas um se materializa, se impõe rei.
Os outros, súditos que são, mesmo em holocausto temporário, se colocam a disposição para possíveis momentos.