sábado, 30 de outubro de 2010

Amanhã

E ela passava os seus dias reparando nas incoerências que insistiam em surgir. Não entendia como o pai envelhecia tanto de um dia para o outro, como as árvores ganhavam flores rapidamente ou o porquê da mãe sempre chorar quando vinha lhe dar o beijo de boa noite. Mas preferia não perguntar, deixava para amanhã junto com tantos planos que fizera naquele dia.
O choro da mãe aumentava ao pensar que, enquanto dormia, a filha apagava toda a memória recente, devido a um acidente cerebral. Mas o mais triste era vê-la fazer do único dia de sua vida uma total espera do amanhã que não viria.


Essas aulas de fenomenologia viu...

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

O Outro

Acostumou-se a ser o melhor, afinal, escrevia sempre sozinho.
Quando conheceu o outro: leu, chorou, amou e, com pena de si, desistiu de escrever.
No entanto, passou a compor uma história sem pena e sem tinta.

Precaver

Alguns dias acordo chorando sem saber o porquê.
Outros acordo rindo, também sem entender.
Estou dormindo longe das facas. Oo

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

ESTOU

Agora estou assim e assim também sou eu.
Amanhã posso estar assado e mesmo mais moreno, serei eu.
Posso estar nostálgico, me prendendo a um passado que em mim não passou.
Ou posso apreciar o novo e fazer do movimento de criar um processo de vôo.

Posso me desesperançar criança e me achar sem importância durante o crescimento.
Ou ser um velho esperançoso e na receita dos meus dias pôr colheres de fermento.
Inclusive acordar vitimizado, reclamando magoado de uma dolorosa lembrança
E no instante seguinte ser um herói altivo que sobressai ativo, a essa mesma dor sem importância

Talvez gargalhe em meio à morte e me sinta até com sorte por morrer sorrindo
Dizem que nasci chorando, quem sabe reclamando dessa imensidão se abrindo?
Posso ser um assassino cruel, já matei no papel tantas coisas quanto quis
Também estar a favor da vida, e encontrar como saída me fazer aprendiz

Sei que existe tudo isso e como num feitiço, tudo sou
Não sei como serei amanhã, mas sei que hoje sou como estou
E, se de repente não me agrada, parto sem parada para uma outra forma de agir
Ainda podendo ser eu genuinamente e mesmo diferente, me fazendo existir.



Vinícius de Moura Gabriel