quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Estranheza...

Um beijo
Um abraço
Um desejo
Um cansaço

Estranheza

Uma pergunta
Uma resposta
Um se junta
Um se solta

Estranheza

Um pedido
Uma negação
Um perdido
Um sem chão

Estranheza

Um desabar
Um reconstruir
Um ficar
Um seguir

Estranheza

Um sentir falta
Um faltar
Um reerguer
Um possibilitar

Estranheza

Um um
Um outro
Um nenhum
Um o todo

Estranheza...

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Olhar

Encarou seus olhos sem medo e a ela foi capaz de se mostrar. Não sentiu-se julgado, menosprezado, nem viu compaixão ou tristeza. Ao contrário, percebeu a alegria de fazer parte daquela revelação. Não que ela não soubesse, mas agora era ele quem a escolhera para saber.
Passou então a procurar o brilho dos olhos dela em todos que o olhavam.
Sabia da injustiça dessa busca, mas optou por viver mais um momento assim.
Hoje ele podia até encontrar estrelas em vários olhares, mas se enamorara da lua que quis encontrar apenas nos olhos dela.


* Mah, saudades dos seus olhos...





segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Florescer


Ela olhava a primeira rosa branca apontando aguçada na manhã daquele dia ensolarado. Não era bem uma rosa, ainda era um botão, mas trazia em si a promessa e o perfume de algo novo. Nascido num emaranhado de espinhos, dizia mais da mulher, do que se podia imaginar. Ela também já tivera espinhos e um dia, sem muito perceber, floresceu.
A sensibilidade de ser flor lhe permitiu pensar nele.
Então seus olhos fotografaram o botão e dedicaram a quem, a pouco, deixara de ser só espinho aprendendo a florescer.

PS: Parceria com a Lêda, q me deu a rosa e a inspiração

* Por falta de um jardim tão lindo qto o seu, lhe dedico uma rosa do meu jardim de contos. ;)

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Compreender

Ela olhava as costas se distanciando cada vez mais, indo embora, se misturando à multidão. Seus olhos, chorosos, expressavam a indignação de quem não sabia o que fazer. Acreditava sim que aquelas costas ficavam muito mais bonitas emolduradas em seus braços, mas era capaz de entender que a outra precisava da liberdade que ela não conseguia dar.

A outra por sua vez, caminhava chorando, sentindo a dor de deixar para trás quem ama. Tentara por diversas vezes se calar, se forçar a ficar emoldurada ali, onde ela também gostava de estar, mas o impulso de voar lhe era tão forte que precisava experimentar o céu.

Os outros não entendiam, precisavam classificar, escolher uma vítima e uma vilã. Queriam rótulos e chamavam tudo aquilo de falta de amor. Os olhos deles não conseguiam enxergar o que se passava dentro delas. Talvez só elas entendessem uma a outra. Talvez nem as duas fossem capaz de compreender a prova de amor que emanava dali. Mas eram as únicas que sabiam o quanto isso lhes custava.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Algo que Não Sei

O inexplicável é sentir dor pelo que não conheço,
esperar pelo que nem sei se vem,
sentir falta do que nunca tive,
escrever poemas de amor inspirados em ninguém

E mesmo assim sentir doando-me
para alguém que nem sei quem
à espera de um amor que nem sei se existe
construindo uma vida baseada num além

Mas assim me sinto mais perto
do não-sei-o-quê que sempre quis
minha alma me obriga a estar aberto
para um sei-lá-o-quê mais feliz

Não adianta muito querer entender,
faltam peças que ninguém desenhou
Há um espaço em branco esperando para ser
preenchido por algo que ainda não se concretizou

E como dói a falta desse algo que não sei
dores tão intensas que meu corpo não dá conta
Em tantos lugares eu já procurei e nada achei,
mas sei que preciso encontrar aquilo que não se encontra

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Outros de Mim

Acordam-me às 5 da manhã.
Acordo-o às 5 da manhã.
Um ente criativo e insistente avisa-me que há muito a fazer. O outro reclama, diz que está cansado e precisa dormir.
Fecho os olhos e me cubro, obrigando várias vozes a se calarem, mas o sono me foge.
Alguém mais criativo abriu as asas, voou dali, e, por mais que me esforce a desligar, os caminhos percorridos são tão mais chamativos que me mantém ligado.
De repente um grito.
Levanto-me da cama assustado e tapo a boca.
Tarde demais.
Um sorriso de satisfação.
Já levantei.
A mudança na ação passa o comando do barco dos possíveis para outro marinheiro, que, de outro, passa a ser um: EU.
Os olhos inchados de quem dormia nem combinam com o olhar brilhante e criativo que conquista seu espaço, mas o rosto todo vai ganhando outra forma enquanto a mesma fôrma se adapta ao outro de mim.
Vários eus atravessam-me o tempo todo, mas um se materializa, se impõe rei.
Os outros, súditos que são, mesmo em holocausto temporário, se colocam a disposição para possíveis momentos.

sábado, 30 de outubro de 2010

Amanhã

E ela passava os seus dias reparando nas incoerências que insistiam em surgir. Não entendia como o pai envelhecia tanto de um dia para o outro, como as árvores ganhavam flores rapidamente ou o porquê da mãe sempre chorar quando vinha lhe dar o beijo de boa noite. Mas preferia não perguntar, deixava para amanhã junto com tantos planos que fizera naquele dia.
O choro da mãe aumentava ao pensar que, enquanto dormia, a filha apagava toda a memória recente, devido a um acidente cerebral. Mas o mais triste era vê-la fazer do único dia de sua vida uma total espera do amanhã que não viria.


Essas aulas de fenomenologia viu...

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

O Outro

Acostumou-se a ser o melhor, afinal, escrevia sempre sozinho.
Quando conheceu o outro: leu, chorou, amou e, com pena de si, desistiu de escrever.
No entanto, passou a compor uma história sem pena e sem tinta.

Precaver

Alguns dias acordo chorando sem saber o porquê.
Outros acordo rindo, também sem entender.
Estou dormindo longe das facas. Oo

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

ESTOU

Agora estou assim e assim também sou eu.
Amanhã posso estar assado e mesmo mais moreno, serei eu.
Posso estar nostálgico, me prendendo a um passado que em mim não passou.
Ou posso apreciar o novo e fazer do movimento de criar um processo de vôo.

Posso me desesperançar criança e me achar sem importância durante o crescimento.
Ou ser um velho esperançoso e na receita dos meus dias pôr colheres de fermento.
Inclusive acordar vitimizado, reclamando magoado de uma dolorosa lembrança
E no instante seguinte ser um herói altivo que sobressai ativo, a essa mesma dor sem importância

Talvez gargalhe em meio à morte e me sinta até com sorte por morrer sorrindo
Dizem que nasci chorando, quem sabe reclamando dessa imensidão se abrindo?
Posso ser um assassino cruel, já matei no papel tantas coisas quanto quis
Também estar a favor da vida, e encontrar como saída me fazer aprendiz

Sei que existe tudo isso e como num feitiço, tudo sou
Não sei como serei amanhã, mas sei que hoje sou como estou
E, se de repente não me agrada, parto sem parada para uma outra forma de agir
Ainda podendo ser eu genuinamente e mesmo diferente, me fazendo existir.



Vinícius de Moura Gabriel